Dermatite atópica

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele que apresenta uma evolução cíclica com períodos de melhora e piora.  

29-jul-2013

A
dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele que
apresenta uma evolução cíclica com períodos de melhora e piora. A
etiologia não é exatamente conhecida, sendo multifatorial. Observa-se um
caráter familiar e freqüentemente está associada à asma ou bronquite e
rinite alérgica.
Não é uma doença contagiosa e a sua freqüência na
população vem aumentando gradativamente, principalmente nas áreas
urbanas, chegando até 20% em algumas localidades.
 

O eczema atópico, termo utilizado como
sinônimo da dermatite atópica, é sua manifestação mais comum e
caracteriza-se por lesões inflamadas da pele, avermelhadas, que coçam,
descamam e, às vezes, ficam úmidas. Inicia-se no primeiro ano de vida,
na maioria dos casos, tem uma evolução crônica e cerca de 60% das
crianças apresentam redução ou desaparecimento das lesões antes da
adolescência. No bebê as lesões predominam na face e nas superfícies
externas dos braços e pernas.
Nas crianças maiores e nos adultos as
lesões acometem principalmente as dobras do corpo, como as dos joelhos,
cotovelos e pescoço. Nos casos mais graves, pode acometer grande parte
da superfície corporal. Portadores de dermatite atópica apresentam uma
incidência maior de infecções bacterianas, fúngicas ou virais da pele.
Apesar da melhora gradativa da doença com a progressão da idade, o
paciente com dermatite atópica tende a manter, durante toda a sua vida,
uma pele ressecada que se irrita facilmente. 

 A dermatite atópica tende a aparecer ou
a piorar quando a pessoa é exposta a certas substâncias ou condições.
São fatores desencadeantes:
 

– pele seca;

– poeira;

– detergentes e produtos de limpeza em geral;

– roupas de lã e de tecido sintético;

– baixa umidade do ar;

– frio intenso;

– calor e transpiração;

– infecções;

– estresse emocional;

– certos alimentos.
 

A ação desses fatores desencadeantes
varia de indivíduo a indivíduo. Alguns fazem uma relação nítida de piora
com alguns fatores desencadeantes e outros não.
 
O papel do alimento na dermatite
atópica é controverso. O paciente com atopia apresenta uma incidência
maior de alergia alimentar quando comparado com o paciente sem atopia.
Cerca de 30% dos pacientes com dermatite atópica podem apresentar
alergia a algum alimento, sendo mais freqüente nas crianças abaixo de 2
anos de idade e nos casos mais extensos e graves. Nos quadros clínicos
mais leves, assim como em crianças maiores e adultos, a presença da
alergia alimentar é muito rara. Os principais alimentos envolvidos são
os leites de vaca e de cabra, ovos, peixes, crustáceos, milho e
amendoim. A retirada do alimento suspeito contribui para a melhora do
quadro clínico, mas não cura a doença.
Os testes de laboratório para a
pesquisa de alergia alimentar devem ser interpretados de maneira muito
cautelosa. O prick test é feito na pele e o RAST no sangue. Ambos
detectam a IgE específica para o alimento suspeito. Um teste negativo
exclui em 90% dos casos uma alergia alimentar. Já um teste positivo pode
ser um falso positivo em uma porcentagem elevada de casos e desse modo
será necessário excluir o alimento e verificar como o paciente se
comporta.
 
Devemos sempre ficar atentos a
exclusões alimentares desnecessárias, que em muitos casos podem afetar o
estado nutricional do paciente.
Não há comprovação científica que o uso
de conservantes ou corantes agrava a dermatite. Maior controvérsia
ainda existe sobre o efeito protetor do aleitamento materno na prevenção
da dermatite atópica. Vários estudos foram e estão sendo realizados
para analisar esse aspecto e até o momento não existe um consenso.
 

A chave para o controle da dermatite
atópica é evitar ou reduzir a exposição aos fatores desencadeantes e
tratar as crises agudas. A seguir enumeramos alguns tópicos para evitar
os fatores desencadeantes:    
 

– uso diário e contínuo de cremes
hidratantes. Muitos pacientes abandonam o uso do creme quando a pele
melhora. Isto é um erro. O creme hidratante deve ser aplicado na pele
úmida, até 3 minutos após o banho;

– o creme hidratante deve ser branco e
sem perfume e deve ser aplicado pelo menos duas vezes ao dia. Alguns
pacientes precisam aplicar quatro ou mais vezes. O hidratante funciona
melhor quando aplicado com a pele úmida;

– o banho deve ser morno para frio, com
uma duração média de 5 a 10 minutos, sem bucha. O sabonete neutro deve
ser utilizado o mínimo necessário e em um único banho. Se o sabonete
está deixando a pele mais irritada ou seca, troque o sabonete ou
suspenda o seu uso temporariamente. Se a pele não estiver suja, limite o
seu uso às axilas, região genital, mãos e pés. Secar levemente a pele,
evitando esfregar a toalha;

– no inverno usar um creme hidratante mais oleoso ou até óleos nos banhos, evitando-se as loções que são mais aquosas;
– use roupas leves, de algodão. Evite tecidos sintéticos;
 – quando a sudorese provoca prurido, tente tomar um banho rápido e mais frio e não se esqueça do hidratante logo a seguir;

– evite ambientes muito quentes. No
inverno saia com agasalhos que possam ser retirados facilmente. Se o
ambiente está muito seco, use umidificadores e procure hidratantes que
contenham vaselina, glicerina, óleo mineral ou silicone;

– use sempre filtro solar (branco e
cremoso) antes de nadar, mesmo em piscinas cobertas. O filtro protegerá
parcialmente a sua pele da ação irritativa do cloro. Logo após sair da
piscina, retire a água com cloro com um banho rápido e reaplique o
filtro ou creme hidratante. Não deixe a sua pele secar ao ar livre sem
creme;

– o atópico geralmente melhora muito quando vai à praia desde que use o filtro solar e hidrate bem a pele;

– nas crises, reduza as atividades físicas que provocam muita sudorese;

– sapatos e roupas molhadas devem ser retirados imediatamente, pois podem irritar a pele e desencadear uma crise;
– evite contato com irritantes da pele
como detergentes, cosméticos perfumados e coloridos, produtos de limpeza
de casa, gasolina, banhos quentes e demorados, bijuterias e excessiva
lavagem das mãos;

– mantenha as unhas curtas;

– evite usar sabões em pó potentes e
amaciantes para lavar a roupa e faça dois enxágües. Lave as roupas novas
antes de usá-las. Retire as etiquetas das roupas;
 – reduza o estresse. Mantenha a calma,
faça um hobbie, desenvolva uma técnica de relaxamento como ioga,
respiração, massagem e etc;
– alguns estudos indicam que a redução
dos ácaros pode melhorar os sintomas da dermatite atópica. Retire
carpetes e cortinas. Use protetores de colchões e de travesseiros e lave
semanalmente;

– evite cachorros e gatos dentro do quarto e escolha bichos de estimação com pouco pêlo e baixo;

– se o contato com plantas desencadeia as crises, use luvas e botas quando for mexer no jardim.
 
Além de todos os cuidados acima, nem
sempre é possível evitar uma crise aguda da dermatite atópica. Nas
crises mantenha os cuidados da pele e inicie o tratamento prescrito pelo
seu médico. Os tratamentos mais utilizados são: 

– corticosteróides tópicos são
medicações utilizadas nas lesões ativas (vermelhas, descamativas e com
coceira) e possuem potências variadas. A escolha da potência é critério
médico. Devem ser aplicados uma a duas vezes ao dia e suspensos com a
melhora dos sintomas. Não devem ser aplicados nas manchas brancas
residuais e que não coçam. O uso desta medicação não exclui o uso do
hidratante. Aplique a medicação nas lesões e o hidratante no corpo todo;
– corticosteróides orais habitualmente
não são utilizados no tratamento da dermatite atópica devido ao seu
efeito rebote (com a suspensão do tratamento a recidiva costuma ser
pior) e seus efeitos colaterais. Às vezes é utilizado em casos graves e
extensos, por períodos curtos, para retirar de uma crise aguda, enquanto
se inicia outra forma de tratamento;
– antibióticos orais ou tópicos podem ser utilizados para tratar a infecção bacteriana que pode acompanhar as crises agudas;
– anti-histamínicos orais são
utilizados para reduzir a coceira. O uso do anti-histamínicos na
dermatite atópica é controverso e, quando empregados, deseja-se mais o
efeito sedativo da medicação. Nunca utilizar um anti-histamínico por
conta própria que esteja associado a um corticosteróide oral e não
utilizar anti-histamínicos tópicos;

– inibidores tópicos da calcineurina
são alternativas de tratamento do eczema. São representados pelo
pimecrolimus e tacrolimus. No início do tratamento podem irritar um
pouco, mas a irritação costuma desaparecer após uma semana de uso. São
utilizados uma a duas ao dia e suspensos na melhora das lesões.

– outros tratamentos são utilizados nos
casos graves e extensos como fototerapia, talidomida, ciclosporina e
metotrexate orais, entre outros.
 

Bibliografia:
 
1- Aada.org.br [homepage on the
internet]. Dermatite atópica. Material educativo. Associação de apoio à
dermatite atópica. São Paulo. [acesso 15 fev 2008] Disponível em: www.aada.org.br
2- Aad.org [homepage on the internet] American Academy of Dermatology. Atopic dermatitis. [cited 2008 feb 15]. Available from: http://www.skincarephysicians.com/eczemanet/daily_care.html
 
 

Cláudia Márcia de Resende Silva 

Médica dermatologista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia